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Publicado em Quarta, 04 de Janeiro de 2017 - 09h19

A esperança é a última que não morre

Por Cândido Ocampo


A esperança é a última que não morre

Ao perder toda a esperança, o ser humano torna-se um morto-vivo. Não por acaso, Dante Alighieri, no poema Divina Comédia, inscreveu no vestíbulo do inferno: “Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança”.


Num país onde, após 516 anos, quase dez por cento da população é formada por analfabetos absolutos (não sabe ler nem escrever), e pouco menos da totalidade do restante de seus habitantes lê e escreve, mas não entendem nada (¾ de analfabetos funcionais - vide os dados do último Pisa, o exame mundial do ensino, da OCDE), onde, portanto, a ignorância é quase uma cláusula pétrea, manter a esperança não é algo simples.

Toda passagem de ano há uma inexplicável (quase ingênua) renovação de nossas esperanças. Esquecemos que há - e há muito – o que avançarmos.
Na esfera pública, nossas instituições padecem do mesmo mal daqueles que a integram: ausência de espírito republicano. O personalismo – uma herança ibérica - que permeia nossa cultura governamental não permite que as estruturas de Estado mantenham seu curso natural, como em qualquer sociedade moderna.

O Estado brasileiro virou refém de corporações de interesses, sobretudo aquelas formadas pelos grandes grupos econômicos e de servidores públicos.
A Operação Lava-Jato expôs as mazelas de nossa plutocracia. A caixa-preta da corrupção público-privada estar sendo desvendada, e, mais do que isso, desmontada; ao menos na sua parte mais perversa: a que privava - e ainda priva - os brasileiros de recursos absolutamente indispensáveis às mais elementares necessidades que devem ser providas pelo Poder Público (saúde, educação, segurança)

Contudo, outra caixa-preta - ainda mais preta, porque é imoralidade revestida de legalidade - há que ainda não foi aberta. O Estado brasileiro tornou-se hospedeiro e subserviente das mais diversas classes de servidores públicos.

Principalmente no Judiciário e Legislativo, os supersalários são uma chaga que envergonha a nação. O impávido Ministério Público, que, segundo nossa Constituição, é o paladino da ordem jurídica, faz olhos-cegos ao tema, pois grande parte de seus integrantes, mormente dos estados, são agraciados com vencimentos que ultrapassam, e muito, o teto constitucional. O mesmo ocorre com os juízes.

Engendram terminologias das mais diversas para escamotear o limite legal. Pletoram em seus contracheques adicionais de toda ordem: de ajuda de custo; de auxílio paletó; de auxílio-moradia (mesmo para os que têm casa própria); de auxílio-creche; auxílio-saúde; auxílio-locomoção...enfim, é uma festa, só que com dinheiro da população.

Esses privilégios, dentre tantos outros, para a desgraça da sociedade brasileira, se estendem para muitas outras categorias funcionais.
O sistema previdenciário do setor público só não deixou de pagar os seus beneficiários porque é público, pois, deficitário desde sempre, vive à custa de aumentos sucessivos de impostos, único meio que os governos estaduais e federal encontram para pagar aposentados com cinquenta anos de idade.

Inverteu-se a ordem natural das coisas: aqueles que deveriam servir são servidos pelo Estado.

Sejamos francos. Não dá para acreditar em um país onde um magistrado, quando comete algum delito funcional, é “punido” com aposentadoria compulsória, sem perder o salário. Não dá para acreditar em um país onde os senadores indicam seus suplentes (geralmente um cúmplice). Não dá para acreditar em um país onde o Ministério Público (o paladino) leva sete anos para denunciar o presidente do Senado e, o Supremo Tribunal Federal, mais três anos só para receber a denúncia. Não dá para acreditar em um país onde um balconista da Justiça do Trabalho ganha mais do que um médico e/ou professor da rede pública. Não dá para acreditar em um país onde a sua polícia mais prestigiada (a PF) mantém em seus quadros um funcionário condenado definitivamente pela Justiça por desvio de conduta (o japonês) e, por ironia, ainda continua escoltando corruptos. Não dá para acreditar em um país onde os seus cidadãos insistem em eleger políticos com reputações pra lá de duvidosas. Não dá para acreditar...

É; não dá para acreditar. Mas, para nós, idiossincráticos brasileiros, para ter esperança, não precisamos acreditar.

Cândido Ocampo, cidadão rondoniense.
“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante. Mas, aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso” (do dramaturgo e poeta alemão Bertholt Friedrich Brecht).



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