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Publicado em Segunda, 06 de Março de 2017 - 10h29

Rondônia: o Estado invisível

Por Cândido Ocampo


Rondônia: o Estado invisível

Em um regime democrático, não é errado afirmar que a qualidade dos políticos – eleitos pelo povo - expressa a essência e a natureza dos seus representados.
Nasci e moro em Rondônia desde sempre, e não me lembro (o leitor pode me ajudar) de algum político do nosso estado que tenha se sobressaído em âmbito nacional pela qualidade, competência e republicanismo de suas ações.

Rondônia é uma espécie de ponto cego no cenário nacional. Raramente é lembrado pela grande imprensa. E quando o é, sempre vem a reboque de tragédias humanas e/ou morais. E não é qualquer “tragediazinha” que convence os referidos veículos de comunicação a publicar os fatos locais. Tem que envolver muitas mortes e grandes rebeliões nos ursos brancos da vida, prisão de presidente de tribunal estadual, etc.

Vide, por exemplo, a discussão que está na pauta de todo o país sobre o equilíbrio fiscal. Quando há qualquer referência a estados que fizeram a tarefa de casa - e não se encontram em situação falimentar: como o Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio grande do Sul -, raramente observo citação à Rondônia, que, queira ou não queira, está com suas contas públicas em relativa ordem.

Essa seria uma grande (e rara) oportunidade para nosso estado ser lembrado de forma positiva. Mas não é. E por que não é?

Penso que há uma relação direta entre esse eterno ostracismo de Rondônia e a qualidade de nossos políticos, principalmente dos que detém mandato em âmbito federal.

Como me referi acima, não consigo identificar, ao longo da nossa história, um mandatário rondoniense que se destacou nacionalmente.

Não estou me referindo a fatos episódicos, como, por exemplo, a relatoria do processo de impeachment do ex-presidente Collor, eventuais presidências e relatorias de comissões de segunda grandeza, etc. Não, não é esse tipo de peseudodestaque que me refiro.

Falo de algo maior, mais elevado, que extrapola o kafkiano âmbito do Congresso Nacional.

Diga-me, caro leitor, quando algum político rondoniense foi chamado para participar - como palestrante, mediador, ou algo que o valha - de um simpósio, encontro, congresso e/ou outra qualquer plataforma de discussão, promovida por grandes veículos de comunicação e/ou outras instituições de relevo – como Veja; Isto É; Valor Econômico; Estado de São Paulo; Carta Capital; Folha de São Paulo; Fundação Getúlio Vargas; Insper etc. – para debater temas de elevado interesse nacional?

Diga-me, caro leitor, quando você viu um político rondoniense sendo entrevistado em grandes programas televisivos – Roda Viva, da TV Cultura; Programa Miriam Leitão, Painel, Alexandre Garcia, todos da GloboNews; Canal Livre, TV Bandeirantes (só para ficar com alguns), dando sua opinião sobre um fato ou acontecimento nacionalmente relevante?

Eu, sinceramente, nunca vi!

Não sou ingênuo o bastante para achar que um senador da República, ou um deputado federal - mesmo de Rondônia - não tenha poderes para nomear asseclas para ocupar cargos públicos de relevância. Contudo, essa prerrogativa não decorre de prestígio, mas fruto do fisiologismo e do clientelismo, que nada mais são do que clássicas expressões da velha política; ou melhor, da política velha, velhaca.

Não sei se o leitor se lembra da imagem rastaquera de um de nossos deputados federais que, na sessão de votação (na Câmara) do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, como um papagaio de pirata, tentava buscar espaço dentre seus colegas que rodeavam o microfone onde se proclamava o voto, para se exibir para as câmeras de televisão de todo o país. Mais do que um ato de melancólica expressão individual, a imagem simboliza o quadro geral dos políticos rondonienses: politicamente inexpressivos, com graves limitações intelectuais e morais.

Há anos, quando um de nossos senadores foi cassado, a mídia nacional o identificava como o “senador de Roraima”.

Como contraponto - e para ser justo – podemos comparar nossos representantes com os do estado vizinho. Não é raro um político do Acre ser convidado a participar de eventos como os acima referidos e/ou sendo entrevistados em grandes programas televisivos, se manifestando sobre questões importantes para o país.
Aliás, se uma tucandeira picar um índio no Acre, sai no New York Times.

Observo alguns historiadores rondonienses (e outros que se dizem historiadores) publicar artigos em nossos sites fazendo referências apológicas a figuras públicas de antanho. Ah! O coronel tal; o intendente não sei das quantas! Como se essas figuras, algum dia, tivessem alçado expressão nacional. Não é verdade. Quem conhece a história de Rondônia sabe que nossos representantes nunca chegaram nem perto disso.

Até entendo o pendor autoafirmativo dos sobreditos historiadores. Mesmo porque, alguns fazem referências elogiosas a seus próprios ascendentes. Porém, esse nativismo nostálgico não pode comprometer a verdade e o compromisso acadêmico com a honestidade intelectual.

A verdade tem que ser encarada. Nossos políticos, na média, são de baixa qualidade moral e intelectual. São presenças certas no “baixo clero” do Congresso Nacional.
Rondônia é um estado com pujança no agronegócio. Somos grandes produtores de várias commodities agrícolas. Contudo, essa grandeza relativa não ecoa na imagem do estado perante o país.

Por que? Porque as grandes promotoras de uma região sãos as pessoas que lá residem, mormente seus representantes. Esse é o grande capital de uma região.

Para mudar esse lamentável estado de coisas, só há uma saída: sermos mais criteriosos em nossas escolhas eleitorais. Não devemos mais votar nessa cáfila de velhos políticos que já demonstrou não ter competência - e nem intenção - de trabalhar efetivamente pela evolução de nosso estado.

Não dá para ficar elegendo os de sempre; as velhas raposas que se limitam a divulgar na imprensa local que trouxeram recursos para esta ou aquela obra, que, como sabemos, quase sempre não saí do papel.

É impossível edificar uma cultura sobre as areias movediças da vulgaridade (diz Javier Gomá Lanzón, 2009:12), visto que “nenhum projeto ético coletivo é sustentável se está baseado na barbárie de cidadãos liberados, porém, não emancipados, personalidades incompletas, não evoluídas, instintivamente autoafirmadas e desinibidas – dispensadas – do dever”.

O autor é cidadão rondoniense, cuja família chegou no estado há 100 anos.


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