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Publicado em Quarta, 08 de Março de 2017 - 08h12

Nos palcos da vida a mulher é destemida, no berço do samba ela canta e encanta

da Redação


Nos palcos da vida a mulher é destemida, no berço do samba ela canta e encanta

Baiana, 38 anos, advogada, assessora de defensor público, negra, cantora, mulher. Há seis anos morando em Porto Velho, Silvania Souza lembra que não foi fácil chegar onde chegou. E para contar sua história, Silvania se desnuda de qualquer vergonha, e se orgulha de ser um exemplo de coragem, determinação e bom humor, em destaque nesta homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

“Meus pais eram servidores públicos. Não éramos miseráveis, mas também não éramos ricos. Cresci ouvindo boa música, MPB, samba, serestas. Meu avô era apaixonado por música, e meu pai também. Todos os domingos, depois do almoço, era sempre a mesma coisa. A vitrola era ligada e a gente caia no samba a tarde inteira”, conta.

Apesar da paixão pela música, o pai não permitiu que Silvania ingressasse na carreira, mesmo quando os convites à época batiam à sua porta. “Cheguei a cantar substituindo a vocalista de uma banda em que Carla Perez era dançarina antes de ir para a Banda É o Tchan, mas meu pai disse ‘não, filha, vá estudar”. A moça começou o curso de história, chegou a dar aulas na Bahia, mas outra paixão a fez correr atrás de novos horizontes.

Direito

“Passei no vestibular para direito, e com pouquíssimos recursos, fui morar no Rio de Janeiro para estudar na Faculdade Gama Filho. Minha mãe conseguia me mandar muito pouco dinheiro, dava mal para pagar o quarto onde eu morava. Às vezes não tinha o que comer. Lembro que uma amiga certa vez me levou ao mercado dizendo que queria que eu cozinhasse para ela...na verdade ela fez uma compra maravilhosa e no final foi me deixar em casa com toda aquela comida”, lembra emocionada.

A falta de recurso para continuar se mantendo na cidade maravilhosa retardou a realização do sonho. “Não consegui concluir o curso, sem dinheiro, devia horrores para a faculdade. Voltei para a Bahia. Reativei uma ótica que minha mãe havia fechado por falta de condições de manter. Comecei a trabalhar com materiais que os fornecedores me confiavam para pagar depois. Estava juntando dinheiro para voltar a estudar. Mas aí a paixão pela música me fez conhecer o homem com quem estou casada a 12 anos”.

Silvania foi a uma festa, foi chamada para dar uma ‘canja’ com os colegas músicos, e conquistou o italiano Carlos, engenheiro eletricista, que estava na platéia e ao ver a moça cantando ficou encantado. Daquele dia em diante, a vida de Silvania mudou. “Ele me ajudou muito. Ele disse, de agora em diante você vem comigo. Virei ‘barrageira’ junto com ele. Ele me ajudou a pagar a faculdade, as dívidas. Fui morar com ele no Sul. Eu era a única negra na turma em que me formei”.

Preconceito

Silvania considera que, apesar de todos os momentos de preconceito que viveu, embora tenham sido dolorosos, não há que se entregar ao problema que não está nela, mas em quem comete o ato de ódio e desamor. “Já vivi várias situações de racismo, mas nunca me apeguei a isso, acho até que os próprios negros às vezes alimentam isso. Minha mãe dizia ‘filha, você é linda, sua cor é linda, seu nariz é lindo e se alguém disser o contrário diga a eles que você tem família, e que tem orgulho de ser negra’, e eu cresci assim”.

Depois de ter morado no Sul, Silvania foi com o esposo para Tocantins, onde teve que se desfazer de dois escritórios de advocacia, quando há seis anos o marido veio para Rondônia trabalhar no processo de instalação das usinas em Porto Velho. “Fui selecionada para esse emprego na Defensoria Pública, estou estudando para passar no concurso de defensora que vai acontecer em breve. E a música continua permeando minha vida”. Silvania se apresenta pela primeira vez no Projeto Canta Mulher 2017, na quinta-feira (9), sendo atualmente uma das vozes mais bonitas do samba na capital.

Cabeleira


A advogada surpreende por onde passa. E a cada encontro com Silvania um novo visual se revela. Ela é adepta ao uso de perucas. Importadas, com fios sintéticos e naturais, Silvania tem uma vasta coleção, de vários estilos, cores, tamanhos.

“Eu tive Alopecia, com queda parcial dos cabelos. Usei um produto para alisar os cabelos quando eu tinha uns 14 anos. Quebrou e caiu quase tudo. Tive que aderir ao mega hair, que na época era com cola mesmo. Depois a Alopecia voltou por causa do peso dos cabelos colados. Fui pesquisar sobre perucas”.

Silvania descobriu os melhores produtos e fornecedores online, e hoje até já sabe fabricar a própria peruca. “Adoro ser assim. Meus vizinhos sempre me olham com cara de surpresa. Um dia curto e escuro, outro dia longo e ruivo, enfim. Estou sempre de cara nova”, concluiu a mulher.


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