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Publicado em Quarta, 08 de Março de 2017 - 13h15

Trans, Victória Bacon fala de preconceito, aceitação e feminilidade no Dia da Mulher

da Redação


Trans, Victória Bacon fala de preconceito, aceitação e feminilidade no Dia da MulherTrês fases da vida de Victória - Quando criança, na colação de grau em Jornalismo e após a mudança (Foto: Arquivo Pessoal/Victória Bacon)

Aos 36 anos, Victória Ângelo Bacon é professora, secretária executiva, tradutora, doutoranda, feminina, transexual e escolheu ser mulher. Os desafios para se considerar uma vitoriosa, em uma sociedade quase totalmente patriarcal, não foram regados a pétalas de rosas. Os galhos secos que a atrapalhavam em sua jornada de descoberta e de autoafirmação a acompanharam por muito tempo, desde criança, e ainda perduram.

De família com origem italiana tradicionalmente católica que habitou o norte do Paraná, Victória recebeu o nome de Victor ao nascer. O garoto, no entanto, desde pequeno não tinha interesse por coisas comuns de um menino como jogar bola e brincar com outros meninos de sua idade. A atenção estava voltada para as bonecas. E foi por volta dos 15 anos que o jovem decidiu que era o momento que assumir a feminilidade que sempre esteve presente.

“Eu comecei o processo de transição muito cedo. Com 15 anos já comecei o processo de humanização. Eu tenho uma tia que é assim, então o processo de aceitação para o meu pai foi mais fácil, mesmo minha família sendo muito conservadora. Eu fiz transvaginação há quatro anos, troquei a identidade, o nome, estou ainda em processo de mudança, ainda tendo que tomar hormônios. Mas é a questão da feminilidade. A família sempre me aceitou, eu acho que tudo é um processo de tempo. Você aceitar uma trans nos anos 90, quando eu me assumi, quando eu decidi ser uma mulher, era muito mais difícil. Hoje nós temos redes sociais para pedir socorro, temos leis, movimentos. Naquela época não tínhamos isso e o preconceito era muito pior, muito maior. Hoje, eu sou a primeira trans professora da rede pública, a primeira trans servidora da Unir e a primeira trans sindicalista em Rondônia”, conta Victória.

Os números de violência contra a mulher ainda são alarmantes (uma mulher é estuprada a cada onze minutos, conforme o 10º Anuário Brasileiro de Violência Pública/2016). Mesmo com o preconceito ainda com raízes fincadas e sendo fertilizado diariamente, Victória defende que a mulher de hoje “tem uma maior autonomia, liberdade de expressão, bem como emancipou seu corpo, suas ideias e posicionamentos outrora sufocados. Em outras palavras, a mulher do século XXI deixou de ser coadjuvante para assumir um lugar diferente na sociedade, com novas liberdades, possibilidades e responsabilidades, dando voz ativa a seu senso crítico. Deixou-se de acreditar numa inferioridade natural da mulher diante da figura masculina nos mais diferentes âmbitos da vida social, inferioridade esta aceita e assumida muitas vezes mesmo por algumas mulheres”.

Há cinco anos, Victória começou a atuar como secretária executiva da Universidade Federal de Rondônia (Unir), um lugar que ela considera mais plural, mais democrático. No entanto, como ainda atua na rede pública de ensino, “os desafios ainda são muito grandes, até porque nossa sociedade ainda é machista”. Outro campo que em ela já esteve presente foi no sindicato da Unir. “Uma coisa interessante é que quando a mulher comente um erro parece ser muito mais visível que um homem. Quem tem a feminilidade tem que se destacar mais”.

Vencendo mais um degrau de sua vida. “Eu sempre falo que tenho duas chagas, a de ser trans e a de ser mulher. São dois percalços numa sociedade ainda totalmente patriarcal, machista e de grande influência religiosa. Eu sou extremamente religiosa. E hoje me considero vitoriosa por chegar onde cheguei. Cada lágrima que derramei é pela história que eu deixei, é assim que eu resumo a minha vida”.

E os sonhos de Victória não têm limites. Projetando 10 anos a frente, ela sonha em estabilidade econômica, familiar e com um amor verdadeiro. “Eu quero ser feliz. Acho que é o que todos queremos, principalmente quem sofre preconceito. E quero me dedicar a minha família e encontrar um amor verdadeiro”. 


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