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Publicado em Segunda, 13 de Agosto de 2018 - 14h25

Fisgada

por Roberta D'Albuquerque


Fisgada

O ar até dói, quando tenta ocupar o mesmo espaço entre cabeça e pernas. Claro que há pescoço, cervicais e torácicas, mas quando grita a lateral direita na altura da L3, nenhuma outra voz merece escuta. Nem mesmo a minha, dona do corpo choroso que abriga essa briga entre a fisgada e a tentativa de (inconcebível) relaxamento muscular.

Há três longos dias e noites, toda a atenção voltada para o desconforto. Falam as vontades e eu calo, convidam as músicas e eu paro, empenham-se os livros e dou de ombros (com todo cuidado do mundo). Mãos nas costas e suspiro interrompido. Bolsa de água quente almofadas afofadas uma aqui outra lá.

Se é a primeira vez que travo as costas? Não, escoliose desde pequenininha. Ocorre que tem feito muito frio em São Paulo e as noites geladas convidam para dois agravantes e uma impossibilidade de tratamento. A começar por Mia, a gata que ao primeiro despencar de termômetros transforma-se em uma criatura adesiva. Coabitamos 50 centímetros de cama em um balé lento e desastrado que contém uma humana cuidadosa e praticamente imóvel e uma gata com sono levíssimo e grande potencial para acordar aos miados todos os membros da casa. Seguido pelo corpo tenso, resposta à sensação térmica de um dígito. Tudo isso embrulhado na falta de coragem de colar um emplastro de uma vez e sentir o gelo cortante desconsertar a birra da coluna.

Uma mãe penosamente torta que observa agora, a criança de 23 quilos retorcida no sofá, olhos fechados, sono garantido de quem ainda funciona em seu completo potencial. O roteiro aponta para um colo mais cama que me soa como o pior dos cenários. Tento acordá-la daqui, desde o “meu amor vamos deitar” até o “levanta que estou te chamando” sem nenhuma chance de obter sucesso em um futuro próximo.

A cena a princípio trágica, me devolveu à chegada de minhas filhas, quando passei a sentir com mais frequência a lombar, resultado dos colinhos que àquela altura eram um presente cansativo ainda que muitíssimo bem-vindo. “Só sossega no meu colo” lembro de dizer convencida mesmo sabendo que mentia. Como dorme lindamente minha menina. É meu primeiro sorriso em três dias. Os filhos e suas fisgadas.

* Roberta D'Albuquerque é psicanalista, escreve semanalmente neste espaço e em diversos jornais do Brasil sobre psicanálise e comportamento, é autora de Quem manda aqui sou eu - Verdades inconfessáveis sobre a maternidade.

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