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Publicado em Segunda, 06 de Junho de 2011 - 09h04

“Tenho de 6 a 7 milhões de hectares de terra”, diz, em Rondônia, o maior latifundiário do Brasil

Altino Machado


O controvertido empresário Falb Saraiva de Farias, de 78 anos, ainda não desistiu de ser reconhecido como dono de 12,7 milhões de hectares e de ficar rico com a exploração de suas propriedades em sete municípios do Amazonas e um do Acre.

- A verdade mesmo é que tenho de 6 a 7 milhões de hectares de terra bem documentados. Documentos de 1800 e não sei quanto - afirma.

Faz 10 anos que Falb Farias, após prestar depoimento na CPI da Grilagem, foi conduzido algemado até a Superintendência da Polícia Federal do Amazonas.

O maior latifundiário do mundo passou oito meses preso sob a acusação de crimes de grilagem, falsificação de documentos, estelionato e sonegação.

- O que fizeram comigo foi uma palhaçada. Quando chegou o alvará de soltura, me tiraram pela porta lateral do prédio para impedir que eu falasse com a imprensa. Existe gente no país que pensa que ainda continuo preso.

Falb Farias nasceu em Sena Madureira (AC), começou a trabalhar aos 11 anos,  estudou até a 7ª série e se tornou regatão - dono de barco que vende e compra produtos de ribeirinhos.

- Meu barco queimou durante uma viagem no Rio Iaco. Era tudo o que eu tinha. Fiquei apenas de calção, na praia, vendo o barco pegar fogo, sem poder fazer nada. Passei dois anos na penúria e dava até recados.

No começo dos 1970, quando a propaganda do governo do Acre apresentava o Estado como “um sertão sem secas e um sul sem geadas”, Falb Farias virou cicerone dos “paulistas” e corretor de imóveis.

A vida começou a mudar em 1972, quando conheceu em Manaus (AM) a viúva Maria Luisa Hidalgo Lima Barros, herdeira das áreas de terra que se declara dono.

Há três anos, mudou com a mulher e dois filhos para Porto Velho (RO). Paga aluguel e leva a mesma vida simplória de antes. Está longe de ser o homem que foi acusado de testa-de-ferro de narcotraficantes, que lavava dinheiro na especulação imobiliária.

Falb Farias todos os dias manuseia algumas das dezenas de pastas com centenas de documentos, mantidas em vários armários do escritório de sua casa.

Não perde a esperança de ficar muito rico. Conta com o apoio incondicional da mulher e tenta despertar o interesse dos filhos pelo patrimônio do qual se declara “herdeiro universal”.

- Tenho todos os documentos do que possuo, mas o Incra nunca quis conferir as provas. Eu sou teimoso e vou vencer todas as batalhas - diz, referindo-se aos registros de milhões de hectares que foram cancelados pela justiça.

De todos os documentos, Farias não se cansa de exibir um acórdão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), de junho de 2008, que extinguiu uma condenação em primeiro grau a três anos de reclusão pela prática do crime de uso de documento falso. Como era maior de 70 anos quando foi condenado, o STJ declarou a prescrição da pretensão punitiva.

Faub Farias se tornou fiel da Igreja Universal do Reino de Deus quando passou 243 dias na prisão da Polícia Federal. Recebeu assistência de pastores e começou a redigir o documento intitulado “Planejamento da futura vida familiar e econômica de Falb com as benção de Deus”.

Em 16 páginas, o acreano detalha planos para construção de uma casa de 3,6 mil m2, com piscina e quadra de esportes, adquirir duas lanchas de luxo, um avião bimotor, cinco carros novos, “todos de boa qualidade e marca, dentro dos gostos de seus proprietários: Lourdes [mulher], Alex, Flabinho, Weverton e Falbão [filhos]“, além de uma chácara.

O plano com a igreja inclui a criação da incorporada Mega S.A., além da Mega Preser S.A., de preservação ambiental, e da Mega Solidário S.A, de assistência social.

Como fonte de capital de giro inicial, Falber Farias afirma no “plano de vida” que conta com o patrimônio de 12 milhões de hectares, sendo 20% para exploração e 80% para preservação.

- Mas mesmo assim, no momento atual, não deixa de ser um grande desafio, porque as terras mencionadas, apesar de serem legítimas da organização, tiveram suas matrículas canceladas nos cartórios por decisão judicial (…) Essas terras não poderão ser utilizadas até que, através da justiça verdadeira, sejam restituídas, o que acontecerá em breves dias, pois a decisão arbitrária da justiça da terra não prevalecerá perante a justiça reta e eficaz do Todo Poderoso Senhor do Universo - assinala no documento.

Em texto e vídeo,  a entrevista com Falb Saraiva de Farias

BLOG DA AMAZÔNIA - Você é um…

FALB SARAIVA DE FARIAS  - Sou um magagrileiro (risos).

O Incra chegou a anunciar que você se declarava dono de quase 13 milhões de hectares na Amazônia.

Sim.  O Incra dizia que tinha quase 17 milhões de hectares, outra hora dizia que eu tinha quase 13 milhões. Não é nada disso. Tenho documentos aqui para provar. Dizem tanta coisa caluniosa. A verdade mesmo é que tenho de 6 a 7 milhões de hectares de terra bem documentados. Documentos de 1800 e não sei quanto.

Como fez para acumular tanta terra?

Cheguei a pensar que havia perdido muito tempo fazendo isso durante 40 anos. Comprei o espólio de uma viúva. Era o maior espólio da Amazônia.

De quem era o espólio?

Era de José Cunha e vinha da Cunha & Companhia, de quem ele havia se tornado sócio. Em 1929, por causa de 12 de contos de réis, pediram a falência da empresa. Depois, os sócios pediram em juízo para transformar a falência em concordata, pois Cunha estava disposto a sair para deixar outro sócio. Eram três sócios e um já havia morrido. O juiz abriu vistas aos credores e então foi deliberado que Manoel Figueiredo de Barros, que depois criou a empresa MF Barros, ficasse sozinho. Em 1930, ele recebeu o ativo e o passivo. A cadeia dominial dessas terras vem de 1917.

Onde estão essas propriedades?

Em Canutama, Tapauá, Lábrea, Pauini, Novo Aripuanã, Borba, Apuí, no Amazonas, e Jurimágua, no Purus, perto de Santa Rosa, lá no Acre.

Como você começou?

Nós, acreanos, não sabíamos o que era um hectare de terra. Até 1970 as pessoas diziam que possuíam tantas quadras de terra. Ninguém sabia que um hectare era 10 milhões de metros quadrados. Aí apareceu Pedro Dotto comprando terras no Acre, no começo dos anos 70. Naquela época, eu estava sem nada. Era regatão e meu barco queimou durante uma viagem no Rio Iaco, em Sena Madureira, lá no Acre. Era tudo o que eu tinha. Eu fiquei apenas de calção, na praia, vendo o barco pegar fogo, sem poder fazer nada. Aí vieram as dificuldades de família. Você sabe que, quando falta dinheiro, sempre surge uma carinha feia. Passei dois anos na penúria. Fazia de tudo, inclusive dava recados. O que eu queria era chegar no final do dia e ter algum trocado para comprar o que comer. Eu tinha apenas duas mudas de roupas. O governador Francisco Wanderley Dantas chegou a me oferecer um emprego, mas não aceitei.

Wanderley Dantas foi o governador que atraiu sulistas com o slogan “o Acre é um sertão sem secas e um sul sem geadas”.

Ele mesmo. Tanto é que a família Dantas foi a primeira a vender as terras dos seringais que possuía e ficou em dificuldades. Bem, eu nunca fui empregado de ninguém. O governador não se conformou, chamou a mulher com quem eu era casado para tentar me convencer a aceitar ser funcionário público. Não aceitei. Minha família toda estava numa situação parecida com a minha e eu sozinho não podia aceitar o emprego. Foi quando surgiu alguém me dizendo que havia um homem no Hotel Rio Branco querendo comprar terras. Ora, naquela época, aparecer alguém interessado em comprar terra no Acre era a melhor notícia. A terra não tinha valor, os seringalistas estavam falidos e endividados. Pois bem, prontamente falei que era dono de um seringal. Era um seringal arrendado, em Boca do Acre, no Amazonas, mas o proprietário havia me dito que vendia o seringal. Meu não era e nunca chegou a ser. O cara disse que ia oferecer ao comprador. Estava em casa quando o telefone tocou no mesmo dia. Calcei o meu conga e fui pro hotel. Lá, encontrei o Pedro Dotto. Ele estava com um mapa imenso do Acre sobre a cama. E eu passei a ser o cicerone dos “paulistas”.

Manuscrito de

O que fazia?

Passei a intermediar a compra de terras para o Pedro Dotto, coisa que eu nunca havia feito na vida. O primeiro trabalho foi convencer o dono do seringal Liberdade, de Sena Madureira, a vender a terra. Em três dias, eu, que estava na penúria, ganhei três mil cruzeiros. Eu quase morri de susto quando me deram o dinheiro. Mas o Pedro Dotto, Alcebíades e Juvenal me advertiram que ia aparecer mais gente no Acre para comprar terra, mas que eu não poderia assumir compromisso com mais ninguém. Foram eles que me levaram para São Paulo pela primeira vez para fazer palestras. A platéia era de gente interessada em comprar terras no Acre. Eles me tratavam como um príncipe. Assim eu passei a percorrer o Acre procurando seringalistas que estavam falidos e queriam vender suas terras.

Esse trabalho durou quanto tempo?

Uns dois anos. Para comprar sou bom, mas péssimo para vender. Para comprar eu choro até chegar lá, no valor que posso pagar. Minha vida mudou da noite pro dia com a comissão que ganhava. Comprei carro, tudo. Aquela crise acabou. Quando viajava, era orientado a me hospedar nos melhores hotéis. Mas aquele poder transformou o Pedro Dotto e ele começou a me deixar de escanteio. Eu não era sócio dele no papel, mas pela palavra. Um dia ele me deu um chá de cadeira de uma hora e eu percebi que o negócio não era mais o que era antes. Reclamei e me afastei dele.

Foi fazer o que?

Em Rio Branco havia dois irmãos. Um era conhecido como Brito Rico e o outro como Brito Pobre. Um dia, conversando com o Brito Rico, ele me falou que uma amiga nossa, chamada Regina, era filha da dona de um seringal. Eu sempre levava encomenda da Regina para Manaus, mas não entregava diretamente para a destinatária. Depois de uma conversa com Regina, ela contou que as encomendas que eu levavam eram para a mãe dela, dona de vários seringais. Viajei para Manaus ao encontro dela, que morava numa casinha caindo aos pedaços, perto do Hotel Mônaco. Ela se chamava Maria Luisa Hidalgo Lima Barros. Um “nomão”, não é? Ela era a dona de todas essas minhas propriedades. Do Amazonas até a Bolívia , todo o Rio Purua era dela. Era dona de navios, seringais e dívidas. Ela estava cm uns 65 anos, morava sozinha na casinha e tinha uma cabeça muito equilibrada. Ela foi com a minha cara, especialmente porque Regina já havia falado de mim. Contou que tinha um seringal em e perguntou se eu tinha interesse em comprar. Falei que não tinha dinheiro, mas ela se dispôs a vender parcelado. Falei que não tinha mesmo dinheiro e ela pediu que eu encontrasse um comprador. Botei na minha cabeça, sem falar para ela, que ia comprar o seringal São Miguel, no Purus, já no estado do Amazonas. Voltei para Rio Branco e procurei vários sócios, mas isso foi em vão.

O que fez para comprar o seringal?

Certa noite, em Rio Branco, um gerente de banco me convidou para comprar o seringal junto com ele. Pediu uma nota promissória e mandou eu passar no banco no dia seguinte para pegar o dinheiro. Dona Maria Luisa Hidalgo Lima Barros havia me oferecido o seringal por 200 milhões de cruzeiros, em quatro parcelas. Voltei para Manaus, assinamos o contrato, e paguei a primeira parcela. Era o primeiro negócio que eu estava fazendo. O seringal media 9 mil hectares. Havia erros. O que realmente determinava o tamanho era os limites, e não o que estava escrito. Depois da medição, baseada nos limites, o seringal totalizou 210 mil hectares. Aí é que entra a minha sorte. Logo em seguida apareceu um  comprador do Paraná. Ele queria uma área de 50 mil hectares. Quando ele falou, logo ficou passando na minha cabeça a oportunidade de vender um pedaço do seringal São Miguel e usar o dinheiro para pagar a dívida com dona Luisa. Vendi os 50 mil hectares por 250 milhões de cruzeiros, voltei para Manaus, paguei dona Maria Luisa e ainda fiquei com 50 milhões de cruzeiros. Ela ficou tão feliz e falou que tinha mais isso, mais isso, mais isso, mais aquilo. Eram muitos seringais. Ela tinha um baú revestido de couro, na sala, mas eu não sabia o que tinha dentro. Na verdade era lá que ela guardava os documentos das terras. Aos poucos foi revelando tudo o que possuía e eu fui comprando e pagando todas as áreas.

Quem era dona Maria Luisa Hidalgo Lima Barros?

Quando houve aquele pedido de falência, ela já era casada com Manoel Figueiredo de Barros desde 1928. Mas ele só incluiu a mulher na firma após 15 anos de casados. Ela era viúva dele com todos os direitos. Tenho o inventário. Mas ela não incluiu no inventário tudo o que possuía. Depois foi que adicionei as demais áreas. Ela herdou tudo, pagou o sócio, os filhos e ficou pobre por causa disso. Ela vivia de renda dos seringais, que um e outro pagava. Depois que ela me vendeu muitas terras, a vida melhorou e ela finalmente comprou uma casa numa área nobre em Manaus. Depois de tudo isso, ela reabriu o baú e me ofereceu o ativo e o passivo da firma, em julho de 1981.

E agora?

Já tenho grande parte legalizada. São mais 200 títulos definitivos. A dona Maria Luisa Hidalgo Lima na verdade não sabia o que ela tinha. Ela só não me deu o baú revestido de couro. Usei um corcel velho para transportar a documentação. Estou te contando por cima, resumidamente. Vamos falar agora da parte do grileiro?


(Disponível em https://www.rondoniagora.com/artigos/tenho-de-6-a-7-milhoes-de-hectares-de-terra-diz-em-rondonia-o-maior-latifundiario-do-brasil)
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