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Publicado em Terça, 19 de Maio de 2009 - 17h14

A humanização do nascimento na Amazônia - Altino Machado

Altino Machado


A humanização do nascimento na Amazônia - Altino Machado
DANI FRANCO - direto de Belém (PA)- Parir de cócoras ou na água. Esperar o trabalho de parto em casa. Ter uma doula… Até pouquíssimo tempo, ideias como essas eram vistas com estranhamento e, muitas vezes, desdém, pela maioria das grávidas e seus parceiros. Algumas até já tinham “ouvido falar” de parto natural ou humanizado, mas encontrar, em Belém (PA), obstetra que colocasse os conceitos em prática era uma luta árdua e praticamente impossível.

Informações sobre o assunto? Só via internet e nunca na região Norte. Uma realidade que, aos poucos, vem sendo modificada, graças à iniciativa da Rede Parto do Princípio, um grupo que se reúne via internet e que mobiliza hoje 250 mulheres, mães e profissionais que buscam e levam informações sobre o parto humanizado e ativo.

Na região Norte, Belém é a única cidade a ter um grupo apoiado pela Rede, o Ishtar – Espaço para Gestantes. Através de suas reuniões quinzenais e gratuitas, cada vez mais mulheres tem acesso a informações sobre fisiologia do parto, plano de parto, intervenções, amamentação, entre outros.

A procura pelo espaço ocorre principalmente por gestantes, companheiros e mães que sabem que hoje não nem todo obstetra é capaz de acompanhar uma gravidez, diagnosticar com precisão a necessidade de uma cesárea, ou acompanhar um parto normal, sem realizar intervenções desnecessárias.

A cesárea, aliás, foi e é a grande dúvida na cabeça de quase toda grávida. Afinal, as duas últimas décadas passaram a impressão de que uma intervenção cirúrgica seria bem melhor para o nascimento do bebê do que a forma natural. O parto passou a ser visto como questão clínica e não familiar.

A intervenção cirúrgica, que existe para salvar vidas em casos emergenciais, passou a integrar um leque de opções, deixando muitas possibilidades para quem vai parir. Nesse quadro, o parto normal passou a ser visto com terror por muitas futuras mães. E o que é normal virou anomalia. Infelizmente, nos últimos vinte anos, é assim que o ato de parir vem sendo visto por médicos obstetras e suas pacientes.

O alto índice de cesarianas, na maioria dos casos, totalmente desnecessárias, tem alarmado as autoridades de saúde pública, a partir dos dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Só no Brasil, a cada 100 partos realizados na rede particular, 90 são cesarianas. Um quadro alarmante, tendo em vista que a recomendação da OMS é de 10% a 15% de cesáreas em todo o sistema de saúde de cada país.

Por conta disso, a Aliança Francesa pelo Nascimento Respeitoso, idealizadora da Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento (SMRN), que ocorre no Brasil desde 2006, através de ações da Rede Parto do Princípio, elegeu para este ano o tema “Diga não as cesáreas desnecessárias”. A idéia é levar o máximo de informações possíveis às mães e futuras mamães, para que seus bebês nasçam da melhor forma possível, principalmente, resgatando o parto como um acontecimento familiar e pessoal, e não apenas médico ou cirúrgico.

Explicar tudo isso de forma compreensível e mais, oferecer informação de qualidade, embasadas em evidências científicas, que motivam as mulheres a buscar médicos e hospitais que atendem suas necessidades naturais, é a grande missão da Parto do Princípio em todo o país.

Atualmente, o Estado com o menor índice de cesarianas é o Amapá, graças ao trabalho incessante das parteiras locais. Em contrapartida, Rondônia possui o maior número de cesarianas em todo o país, atingindo 90% dos partos de todo o seu sistema de saúde. Uma contradição inexplicável em uma região unida pela geografia.

Acredita-se que a grande motivação das cesarianas ocorre por indicação dos médicos obstetras, uma vez que 75% das grávidas do país desejam um parto normal, mas apenas 10% conseguem. A motivação da classe médica é estimulada, principalmente, pela maior lucratividade que a cesariana permite, além de outros fatores como a falta de tempo para esperar a evolução de um trabalho de parto, no caso da rede pública, por exemplo.

Hoje a Parto do Princípio está com exposições da Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento em 10 cidades brasileiras.

Normal X Cesárea

→ Riscos da cesárea para a mãe: maior risco de morte materna em decorrência da cirurgia (2,8% maior na cesariana eletiva - realizadas antes do trabalho de parto - quando comparada ao normal). Maior chance de desenvolver infecção e depressão pós-parto.

→ Riscos da cesárea para o bebê: contato tardio com a mãe, maior probabilidade de desenvolver asma, bem como de fracasso no aleitamento materno.

→ Riscos da cesárea para gestações futuras: aumento da taxa de infertilidade, maior possibilidade de ruptura uterina e descolamento da placenta.

→ O que se critica não é o método em si, mas o uso indiscriminado.

→ A princípio, a cesariana é indicada para todos os casos em que o parto normal represente um risco para o bebê ou para a mãe.

→ Os benefícios do parto normal são inúmeros, tanto para a mãe como para o bebê. Vão desde a uma melhor recuperação da mulher e redução dos riscos de infecção hospitalar até a uma incidência menor de desconforto respiratório do bebê - sem contar que as despesas são menores, por conta do tempo de internação.

→ No Brasil, existe o mito de que após a realização de uma cesárea as mulheres não podem ter um parto normal. Isso ocorre pela falta de informação, tanto das gestantes quanto de profissionais de saúde não treinados para acompanhar um parto normal em mulheres que já tenham passado por essa cirurgia.

→ 79,7% dos partos no setor privado são cesarianas. Já no setor público, a taxa é menor, de 27,5%, ainda assim, o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

*Dani Franco é jornalista paraense, mãe e integrante da Rede Parto do Princípio


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