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Publicado em Segunda, 07 de Maio de 2012 - 09h47

O Enigma dos Tomates

José Armando Bueno


    Tomate é um produto essencial à mesa do brasileiro e a cadeia de subprodutos é fundamental a um sem número de receitas. Salada sem tomate, não é salada, e pizza sem molho de tomate, não é pizza, daí a essencialidade do tomate para dar mais sabor e cor às refeições. Agora, experimente ir ao supermercado da esquina. Qual o tipo de tomate, invariavelmente, você encontra? Tons de verde para amarelo, mas raramente vermelhos. Quase sempre gelados ou resfriados, paralisados em seu desenvolvimento nas câmaras frias dos supermercados. Sabor? Que luxo! Nem pensar. Estes são tomates do tipo longa vida (Carmem, dentre outros), feitos para aguentar transporte e sobrevida de 15 dias fora da geladeira. Muito ácidos, sem sabor, sem aroma, esbranquiçados no interior, são próprios para saladas muito temperadas, aonde os temperos ganham vida, jamais o tomate. Jamais serviriam para um quitute saboroso, o que dirá um molho gostoso. Esses tomates entram às toneladas em Rondônia toda semana, vindos principalmente de São Paulo. Preço médio da caixa com 20 quilos: R$ 18,00. Dependendo da safra e da época do ano, pode chegar a R$ 25,00. 

    Esses tomates longa vida de mesa (quase sempre redondos) plantados em grande escala têm ciclo de produção de 90 a 100 dias. O melhor da safra no centro sul do país é agora entre os meses de maio a julho. Portanto, os preços devem cair um pouco. Os tomates para a indústria são plantados especialmente em Goiás e Minas Gerais e são do tipo rasteiro ou italiano (ovais), e são preferidos por terem mais carne, sabor e menos sementes.

    Agora já é bem conhecido o caso dos tomateiros de Alto Alegre dos Parecis, no centro de Rondônia que,  depois de tanto descaso, decidiram que não vão depender de... Rondônia. Viraram notícia, inclusive pelas hostes do Departamento de Comunicação do Governo do Estado, como um caso exemplar de exportação (sic). O que a maioria conhece de agora, já vem desde 2008, num exaustivo processo de empreender sem qualquer apoio, ou com apoios ridículos, politiqueiros. E isso é que forma o “Enigma dos Tomates de Rondônia”, exemplo típico da total falta de visão dos governantes de todas as esferas, cores e sabores. Vamos ver isso de perto.

    Os tomateiros de Alto Alegre cansaram do assédio dos atravessadores e dos espoliadores, interessados sim na preciosa mercadoria que produzem, mas pagando R$ 10,00 a caixa com 20 quilos, retirado no produtor. Nem o tomate longa vida mais vagaba custa isso. Alto Alegre é o maior produtor de tomates da Região Norte. E são tomates do tipo rasteiro, ovais, carnudos e saborosos, numa variante genética que se adaptou bem ao nosso clima. Esse tomate, no centro sul do país, tem ciclo de produção de 80 a 90 dias. Aqui, com 45 a 50 dias, estão prontos para a colheita. Quem é do ramo sabe que vivemos numa gigantesca estufa natural, e os ciclos de produção tendem a ser mais curtos aqui do que em outras regiões do país. Claro que irrigação e, em alguns casos, telas para proteção e sombreamento, especialmente das mudas, são fundamentais para maximizar a produtividade.

    O maior problema dos tomateiros é a logística, daí o assédio dos atravessadores. Estão longe dos grandes centros de consumo no Estado e distantes de rodovia decente. São, em sua maioria, agricultores, carentes de toda a infraestrutura que se possa imaginar. Falta mecanização, transporte regular, mas especialmente reconhecimento do mercado estadual. Decidiram que, se Rondônia não quer seus tomates, Manaus compra-os a quase totalidade da produção, contadas em milhares de toneladas, pagando R$ 30,00 a caixa com cerca de 20 quilos, cerca de 50% a mais do preço de mercado. Essa é a lógica do mercado de Rondônia. Para o Governo, são exportadores valorizados para fazer crer que produzimos tanto, que até exportamos. Na realidade, a incompetência do Governo nos faz ir ao supermercado comprar porcaria, enquanto a boa mercadoria vira produto de exportação. Agora, o Governo surge com um programa para a criação de pequenas indústrias, para o processamento do tomate. Se já não os tínhamos in natura, o que dizer sobre tomates processados? E não me venham falar em agregar valor. Isso é balela de gente que não conhece o mercado. O problema não está em agregar valor, e sim em dar valor ao que já é bom demais e falta à nossa mesa. Os tomateiros de Alto Alegre estão muito próximos a dar um tiro no pé, com a arma fornecida pelo Governo. Existem inúmeros casos semelhantes em Rondônia, e a lista de fracassos das intervenções governistas nos sistemas de produção, matam no nascedouro as iniciativas dos produtores e pequenos empreendedores rurais. Tudo em nome da “política do apoio à produção”. Entregam trator e caminhão, mas não dão nada sem a burra razão política.

    O Enigma dos Tomates revela a total falta de uma estratégia e a inconsistência das políticas de produção e abastecimento do Governo. O que é melhor: 1) Estimular a produção de forma a atender a totalidade da demanda do Estado e, aí sim, exportar o excedente ou, 2) Manter as coisas como estão e fazer política com o chapéu alheio, afirmando que os tomateiros são exportadores porque Manaus quer nossos tomates? A verdade está escondida sob o manto da incompetência. Isso se espalha por pelo menos uma centena de produtos básicos hortigranjeiros, maciçamente importados por atacadistas e supermercadistas. Afinal, não temos terras, não temos agricultores, faltam estradas, mercado consumidor, não temos nada. Nem vontade de mudar. As quase 80 mil propriedades rurais de pequeno porte com seus 200 mil produtores, não existem, são mera estatística. Na realidade, estão quase todos subjugados por um sistema de produção que privilegia a espoliação pelos laticínios, pois ficaram amarrados a políticas públicas aonde a produção de leite era o grande eldorado. Eldorado para os fabricantes de tanques de resfriamento, bem casados com laticínios e governantes, assembleia itinerante, mais interessados em carreatas, passeatas e grandes mamatas.

    Vai lá numa linha (estrada vicinal) bem no interior do nosso estado. Vai lá ver a dura realidade do nosso “produtor rural”. Uma vaquinha aqui, outra ali, produção de menos de quatro litros por animal/dia, capim ralo, talvez um porquinho, galinha, um feijãozinho, uma mandioquinha e nada mais. O transporte é raro. Dependem de ônibus velhos, cambaleantes, para levar alguma coisa para vender na cidade mais próxima, sob o sol ou a chuva. Passam o dia esperando o outro dia. Menos de 5% das propriedades rurais produzem algo consistente. Quando produzem, dependem de transporte. Quando tem transporte, falta estrada, ponte, pois vivemos no estado do desmonte. Tem mais foguetório e palavrório do que estrada decente e governante presente. Mercado? O que é isso? Pra que isso? Jamais existirá um negócio decente, sem mercado presente.

    Temos 1.700.000 habitantes. Na nossa cara, pela BR364, passam diariamente centenas de carretas abarrotadas de alimentos para nossas mesas e para as mesas de mais 3 milhões de habitantes do Acre, Amazonas, Roraima. Isso é mercado. Quase cinco milhões de bocas famintas para alimentar diariamente, e nosso governo faz festa com os tomateiros “exportadores” de Alto Alegre. Mês a mês, mais de 500 carretas com frango congelado passam por aqui, na minha cara, na sua cara. Pena que vivemos num estado muito frio, hostil para produzir frango. Mês a mês, quase 600 carretas de produtos lácteos passam por aqui. Pena que não temos laticínios em nosso estado. Mês a mês, quase 1.000 carretas com embutidos de carnes passam por aqui. Pena que não temos frigoríficos em nosso estado. Dá pena ver um estado com alta capacidade de produção agrícola, servir apenas de pasto pra boi e de lagoa pra peixe. Isso é que é política pública de produção e abastecimento.

    Governador Confúcio Moura, lembra-se das centrais de abastecimento? Então, são elas que salvaram milhões de produtores em todo o nosso país, antes escravos da mesma cena que vivemos aqui. São elas que regulam mercados e fazem a contenção dos atravessadores que vicejam por aqui. São elas que promovem a distribuição da renda em regiões com alta capacidade de produção agrícola. São elas que tornam a vida melhor, governador. Acorda governador! O Enigma dos Tomates é tão fácil de ser desvendado, quanto cochilar em sua cadeira dourada vendo nosso estado minguar.

    Quer falar comigo? Escreva: buenoconsult@gmail.com


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