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Publicado em Terça, 10 de Abril de 2012 - 10h34

PÓS-USINAS OU PÓS-RUÍNAS?

José Armando Bueno


A eterna fuga dos despreparados: a correria atrás do prejuízo.

No dia 8 de julho de 2009, portanto há quase três anos, publiquei este artigo:

Porto Velho em 2020 poderá ter esta cara:

1) Eliminação imediata de cerca de 15 mil postos de trabalho (até 2012), com o encerramento das obras das hidrelétricas, caso não ocorra nenhum acidente de percurso que impeça a conclusão. O impacto microeconômico para diversos segmentos será muito significativo, incrementando este número em cerca de mais 8 mil postos de trabalho, no mínimo.

2) Cerca de 20% das unidades habitacionais (casas e apartamentos) serão desocupadas, gerando um estoque que, irremediavelmente, não será comercializado, apesar da fortíssima queda nos preços vigentes.

3) Cerca de 400 empresas, criadas exclusivamente para alimentar a boca larga do consumo das hidrelétricas, serão fechadas, elevando de forma significativa o impacto microeconômico em Porto Velho.

4) Todos os segmentos econômicos sofrerão perdas significativas e inúmeros negócios vão fechar ou quebrar.

5) Carreatas, passeatas, caravanas a Brasília, fóruns, debates, combates e embates públicos serão realizados, no afã belicoso para buscar uma solução que não chegará. Os políticos serão pressionados, muitos vão perder suas posições e outros vão surgir do anonimato, aproveitando-se da ignorância popular diante da desgraça premeditada, mas não olhada.

6) Entidades de representação de empresários, de empregados, do funcionalismo etc etc etc vão se mobilizar, mas nada de concreto vão alcançar.

7) A queda extrema na arrecadação paralisará inúmeros serviços públicos, a começar pela coleta de lixo. Porto Velho se verá 30 anos no passado, quando a cidade fétida era invadida por ratos a plena luz do dia, e nada se fazia; o sistema de saúde estará à beira do caos.

8) O desemprego crescente e a falta de perspectivas, aliado à enorme distância do centro-sul do país e os proibitivos custos de deslocamento, farão com que as ruas sejam invadidas por desempregados, desocupados, famílias inteiras famintas e miseráveis à procura de uma ajuda qualquer, que não chegará, jamais.

9) Igrejas serão invadidas e tomadas por novos fiéis, desesperados para encontrar uma resposta, uma solução, uma benção à desgraça desumana que baixará sobre Porto Velho, como se Deus fosse responsável por tamanho abandono. Portanto, igrejas sempre serão um bom negócio, especialmente nas crises, e também farmácias, psicólogos e numerólogos de todas as vertentes.

    Esta é uma pequena amostra de como poderá estar Porto Velho até 2020, uma cidade que fora estuprada, usada e abandonada. Abandonada não por empreendedores que aqui estão desembarcando para realizar seus negócios milionários. Porto Velho já está abandonada em 2009, pelos políticos de plantão e lideranças de toda ordem, mais ocupados e preocupados com os seus ganhos de hoje do que com a desordem de amanhã.

    Porto Velho (e Rondônia) não têm um projeto de longo prazo que possa estabelecer novos padrões de desenvolvimento sustentado, para eliminar a excessiva dependência que as hidrelétricas já estão criando em nossa economia e que vão se alargar sobremaneira. Cidades como a nossa, que tiveram obras gigantescas durante longo período, sofreram baques significativos de toda ordem, podendo chegar a uma queda violenta de 30% a 40% de todo o PIB local. A desorganização econômica e o caos social vão se instalar em Porto Velho.

    E uma pergunta não quer calar: o presente define o futuro ou o futuro define o presente? Canso de perguntar aos empreendedores e, invariavelmente, a resposta é: o presente define o futuro. Lamento. Jamais o presente definirá o futuro. Políticos e lideranças no nosso país jamais se preocuparam com o futuro, o que dirá os de Rondônia, terra devassada pelos oportunistas de plantão.

    Alternativas estratégicas macroeconômicas não são sequer consideradas nos planos miseráveis que, vira e mexe, enchem relatórios delirantes para arrancar mais verbas de Brasília, para nada ou apenas para encher os bolsos dos mais espertos.

    O velho e cansado Peter Drucker, o maior pensador de gestão da história humana, já dizia: se não podemos decifrar o futuro, então ele pode ser criado. Deve ser criado. Com a palavra, os senhores políticos e lideranças.

    Então meus amigos, leitores, críticos e detratores, agora ressurge a conversa mole de mais um movimento sem futuro, codinome “Pós-Usinas”. Membros “importantes” desse movimento natimorto, alguns bem posicionados na economia local, foram acessados por mim, pessoalmente e de forma insistente, para que dessem atenção aos meus persistentes alertas sobre o futuro que agora chegou. Sorrisos amarelos, comentários evasivos, e nada fizeram. Governantes, lideranças empresariais, todos fizeram ouvidos de mouco aos meus apelos recorrentes. Recebi apenas UM apoio formal, do maior incorporador do estado de Rondônia. Nada mais.

    Estive pessoalmente com o presidente DE DIREITO da FIERO, no dia 11 de agosto de 2011, para tratar do assunto “pós-usinas”. Ele estava “ocupadíssimo” como sempre, envolvido em suas viagens telúricas, vorazes consumidoras de diárias para justificar o injustificado. Pediu que eu falasse com o presidente DE FATO da instituição. Não falei. Estão todos muito ocupados com suas agendas que não produziram um prego e não trouxeram um centavo de investimento para nosso estado. Só blá-blá-blá pra encher relatórios insípidos e listas de ações maquiadas que começam no nada e levam a lugar algum. Tudo para justificar o uso e abuso de milhões de recursos provenientes de nossas empresas, que não geram nada a não ser fofoca e maçaroca de papel.

    Do dia 5 ao dia 10 de junho de 2006, portanto há quase seis anos, realizei em Porto Velho um Seminário de Posicionamento Estratégico para cerca de 50 empreendedores. O primeiro de três. Nesses eventos, tracei claramente as oportunidades e os riscos para a economia de Rondônia até 2016. Nesse evento de junho de 2006, estava presente um sócio do atual presidente DE DIREITO da FIERO. Falou de peito estufado, que estavam para lançar o “primeiro grande shopping de Rondônia”, em Porto Velho, o Porto Madeira Shopping. Perguntei se o plano de negócios havia previsto competidores para um empreendimento dessa envergadura. Respondeu o cidadão de peito estufado: “Bueno, quem em Rondônia tem R$ 40 milhões para um investimento desses?” Argui: Teu concorrente não precisa ser de Rondônia. Acrescentei, de forma enfática, que era imperativo considerar no plano de negócios concorrentes (como todo plano de negócios com alguma seriedade), pois isso poderia gerar muita hostilidade e surpresas desagradáveis para o sucesso do empreendimento. Um ano depois, foram colhidos pela surpresa. Um concorrente global construiu o Porto Velho Shopping em prazo recorde. Os fatos estão aí, senhores. O tal shopping não decolou, os R$ 40 milhões nunca existiram e o resto vocês já sabem.

    De lá para cá e desde 2004, conversei com muitas lideranças empresariais, quase todas envolvidas em suas lutas fratricidas em busca de espaço político para suas carreiras pessoais. Rondônia não está na lista de suas prioridades. Apenas quando há uma janela de oportunidade para deitar verborragia opinativa sem qualquer lastro de conhecimento da realidade, eles aparecem serelepes para ocupar a mídia. São papagaios de pirata desta mesma realidade e, num futuro próximo, vão se tornar os abutres a voar sobre a carniça podre da falta de iniciativa. Abutres comem carne podre para sobreviver até a próxima desgraça. Assim são eles, todos, políticos e lideranças de plantão.

    Não desejo má sorte para esse grupo do “pós-usinas”. Ao contrário. Precisamos de mobilização. Mas falta-lhes metodologia própria para a construção de cenários, falta visão de futuro e competência para gerenciar grupos muito heterogêneos com metas de trabalho específicas. Falta-lhes o principal: iniciativa com ACABATIVA.
Começam tudo, não terminam nada. A Agência de Desenvolvimento Econômico do Governo Norte-Americano (USAID) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), já haviam mapeado na década de 80: nós latino-americanos somos péssimos planejadores. Sabendo dessa falha histórica, já deveríamos ter aprendido que, sem planejamento, sem olhar pra frente, não adianta tanta energia pra realizar, fazer acontecer. Planejar é pensar no papel. E também errar no papel, que é mais barato. Agora tudo, tudo vai sair muito, muito mais caro. Três trimestres consecutivos de maus resultados desde junho de 2011, não foram suficientes para chamar a atenção dos que agora correm. Esperavam que março sinalizasse melhoria no cenário. Não aconteceu. O que aconteceu foi mais caos, desordem, baderna, e falta de ação de governos e lideranças.

    Nosso futuro não é incerto. Ele simplesmente não existe. O que existe é uma ânsia doida pra correr atrás do prejuízo. É a eterna fuga dos despreparados. A parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Por enquanto, o do governo está cheio, com arrecadação recorde persistente. Mas isso vai acabar. Até lá, todo mundo dormindo o sono dos desocupados e despreocupados de plantão. Ainda acreditam nessa mixaria de projetos eleitoreiros e midiáticos do peixe e do agronegócio de quintal. PÓS-USINAS não me parece uma identidade própria para esse movimento que pretende ser formado esta semana. PÓS-RUÍNAS me parece mais apropriado. Corra moçada, pois se ficar o bicho come, e se correr o bicho pega. Esta é minha pequena contribuição para este momento. Reflitam em suas inconsciências.
   
Quer falar comigo? Escreva para: buenoconsult@gmail.com


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