Flávia Albaine
Igualdade de gênero nas escolas: a lição que pode salvar vidas
Por que ensinar meninos e meninas a se respeitarem é a prevenção mais eficaz contra a violência de amanhã
Terça-feira, 21 Julho de 2026 - 10:44 | Flávia Albaine

Não importa se você é de direita, de esquerda, religioso ou não.
Existe um dado que não cabe em nenhuma bandeira: o Brasil vive uma emergência de violência contra a mulher.
Somente em 2025, o Ligue 180 registrou mais de 1 milhão de atendimentos, quase 3 mil por dia — um aumento de 45% em relação ao ano anterior.
No mesmo ano, o país bateu recorde histórico de feminicídios, com 1568 mulheres assassinadas por serem mulheres, alta de 4,7%.
Diante de números assim, falar sobre igualdade de gênero na escola deixa de ser "ideologia" e vira, simplesmente, saúde pública e segurança pública.
E é justamente na escola que a prevenção começa. O menino de hoje é o homem de amanhã — o namorado, o marido, o pai, o colega de trabalho.
Se ele cresce sem aprender a respeitar o "não", a dividir tarefas, a lidar com a frustração sem violência, é bem provável que reproduza, adulto, o que naturalizou quando criança.
Ensinar igualdade de gênero desde cedo não é impor um comportamento: é oferecer a meninos e meninas outra referência de convivência, baseada em respeito e não em hierarquia.
Mas o que é, na prática, igualdade de gênero? É reconhecer que homens e mulheres têm os mesmos direitos e o mesmo valor — e que a desigualdade é o solo onde a violência cresce. A Lei Maria da Penha já explica isso: a violência contra a mulher não é só o tapa ou o soco.
Ela também aparece na humilhação e no controle emocional (violência psicológica), no impedimento de trabalhar ou administrar o próprio dinheiro (violência patrimonial) e nas piadas, propagandas e comentários que reforçam que "lugar de mulher é..." (violência simbólica).
Falar de igualdade de gênero na escola é dar nome a esses comportamentos antes que eles se tornem hábito.
E a urgência é ainda maior porque essa violência está ficando mais jovem.
Hoje já se aplicam medidas protetivas da Lei Maria da Penha contra adolescentes, algo antes raro.
Cresce entre garotos a adesão a discursos misóginos organizados nas redes — a chamada cultura red pill, os incels, a "machosfera" —, que pregam a submissão feminina e transformam frustração afetiva em ódio.
Casos de "ranking sexual" com fotos de colegas e de nudes e imagens manipuladas por inteligência artificial e compartilhados sem consentimento já apareceram em escolas de diferentes estados brasileiros.
Só a SaferNet recebeu 87.689 denúncias de crimes cibernéticos em 2025, 28,4% a mais que no ano anterior, com a misoginia entre as categorias que mais cresceram.
Por isso, tratar de igualdade de gênero na sala de aula não é "antecipar" um debate adulto: é chegar antes do algoritmo, antes da comunidade de ódio, antes que a violência vire hábito. É proteger meninas hoje e formar homens melhores amanhã.
Nenhuma opinião política muda essa conta.
* Flávia Albaine Farias da Costa é Defensora Pública do Estado de Rondônia desde novembro de 2016. É mestra em Direitos Humanos, Doutoranda em Direitos Humanos, Professora de Cursos de Pós Graduação, Palestrante e Escritora.