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Publicado em Domingo, 11 de Outubro de 2020 - 08h35

A nova caverna de Platão – parte 2

por Rodrigo de Souza


A nova caverna de Platão – parte 2

Um ditado vietnamita diz o seguinte:

“Quando você come arroz, precisa tomar sopa”.

Um meme das redes sociais que pode exemplificar muito bem em que estágio das relações sociais estamos e o que temos como importante.

Um adolescente comenta com o outro:

“hoje vi um cara estranhão no café, ele tava tipo assim, lendo um livro, DE PAPEL, na mesa tinha só uma xícara de café, o cara não tinha um celular, um tablet, não usou nenhum fone de ouvido, não recebeu nenhuma mensagem, maior tempão, cara mó estranho, jeitão de maior psicopata, lá quieto sem falar com ninguém com a cara enfiada naquele livro”. autor desconhecido (adaptação livre)
A normalidade reinante hoje em dia propagandeia um engajamento virtual nas redes sociais, sem laços reais, sem sentimentos genuínos, e principalmente, sem avaliações, sem análises, sem senso crítico e sem possibilidade de ver, ouvir e expor o contraditório.

Enganam-se aqueles que acreditam que as redes dão voz a todos e se dá uma visão REAL do que as pessoas pensam, os algoritmos nos comandam e norteiam, fazem de nós títeres (dicionário: boneco articulado cujos movimentos são controlados por meio de fios; marionete) manuseados ao bel prazer de uma estrutura invisível, somos influenciados e manipulados sem percebermos, acabamos por ser bombardeados com informações e pontos de vista dos quais concordamos ou que desejam que adotemos, não há contraditório ou prova de verdade, assim a máxima, “uma mentira repetida à exaustão, se torna realidade”, se faz real; a fome de pertencimento, a busca por fazer parte de um grupo, de ter um “propósito de vida” nos leva a distorcer a realidade e sufocar o nosso próprio senso crítico.

Pesquisa da semana passada promovida pela empresa de marketing Simple Texting revelou que os jovens abririam mão de álcool, café, sexo e animais de estimação para usar o smartphone.
Segundo o levantamento, 72% disseram que preferem ficar separados do álcool por um mês a ficar sem telefone, enquanto 64% disseram que desistiriam do café. Além disso, 44% ficariam sem ver os entes queridos por um mês se pudessem ficar com seus celulares. Por fim, 40% dos donos de animais abandonariam seus cães por um mês, em vez de abandonar o telefone.

Além disso, 53% dos entrevistados em geral, e 60% dos homens especificamente, preferem desistir de seu smartphone por um mês do que sexo pelo mesmo período; no entanto, os entrevistados da Geração Z (que engloba os nascidos nos anos 1990) dizem o contrário: 56% dos nativos digitais dessa geração preferem desistir de fazer sexo por um mês do que se separar de seu telefone celular pelo mesmo período.

Uma pesquisa inglesa revela que 62% das mulheres do país parariam o sexo para ver mensagens ou atender o telefone. Em outra pesquisa, da MSL Group, cerca de 45% das mulheres chinesas, 39% das norte-americanas, 38% das britânicas e 28 % das brasileiras, preferem ficar um mês sem fazer sexo a abrirem mão de seus smartphones.

O que todas essas pesquisas demonstram é mais do que uma tendência, é sim uma dependência, uma possível epidemia, tendo em vista que as pessoas estão abrindo mão não só de interação social e contato físico como no caso do sexo, mas também de grandes cargas de estímulos, reforçadores, gratificações e produção de neurotransmissores que dão sensações de prazer e relaxamento. Quando cérebro opta por um ou outro tipo de gratificação precisamos parar para pensar em que caminho estamos indo.

A médio e a longo prazo isso pode afetar a taxa de natalidade mundial, aumentar o consumo de benzodiazepínicos, ou ainda influenciar nas taxas de depressão e suicídio.

O Ser humano tem duas necessidades básicas em termos de relações sociais: pertencimento e aceitação. É imprescindível pertencermos a um grupo, uma equipe, um time, uma ideologia, uma crença, uma ideia central, enfim algo que nos una, que dê liga, que nos transforme em um elo de uma corrente coesa que faça o indivíduo se sentir importante e parte de algo maior. Pertencer nos manteve aquecidos na era glacial e vivos nas eras paleolíticas e em todas posteriores com as defesas das fronteiras dos clãs, diminuição do nomadismo, início da agricultura até chegarmos às cidades e países. Eu pertenço a algo, não estou só no mundo, assim, tenho um propósito, sou admirado como grupo e ouvido, isso gera um tipo de gratificação psicológica insuflando o ego e dando uma nova dimensão ao narcisismo, além da produção de hormônios como Adrenalina, Ocitosina e outros. O problema disso tudo é que se o objetivo é apenas se encaixar, achar um lugar naquele microcosmos, ter um espaço delimitando com função definida para que eu detenha um micro poder sobre o outro quando o assunto for afeto a minha pessoa, simplesmente estarei mentindo para mim mesmo, pois a cada novo episódio terei que aumentar a dose de louvor e dedicação “à causa”, me violentarei de todas as formas para acreditar que pertencer a “algo maior” é mais importante do que o meu verdadeiro eu, de eu poder me expressar como entendo determinado assunto ou agir como acredito, a dose de gratificação se torna uma necessidade, um vício e está intrinsicamente ligada ao pertencimento.

Do ponto de vista das mídias, quanto mais propago determinada ideia, mais “concordantes” se aproximam e validam o meu comportamento, assim, tendo a aumentar a ação a fim de ter mais aceitação e gratificação, é um ciclo sem fim e perverso, já que não importa quem será o alvo, desde que seja alguém ou algo discordante da minha retórica ou que não se encaixe no perfil definido pelo meu grupo, que na verdade não definiu exatamente as coisas, foi em grande medida induzido por algoritmos que criam estratégias, condições e discursos críveis para que atuem como imãs. Nesse ponto pode se perceber que o ciclo da gratificação não tem fim, como o adicto que não consegue largar o vício.

A outra ponta desse nó é a aceitação, vivemos em um momento histórico onde buscamos o fácil e o acabado, com isso aceitamos de bom grado que nos digam como deve ser para sermos cool, interessantes, estarmos na moda ou bonitos. Para tal, são criados parâmetros irreais, pois o fim de tudo isso é o consumo e uma busca sempre maior pelo que nos deixará mais próximo dos padrões determinados por grupos que na verdade só buscam o lucro e nos controlar. Não ser aceito nos leva a exclusão social e tratando-se de grupos de pré-adolescentes, adolescentes e jovens pode ser a chave para disfunções psicológicas de todas as ordens. Psicologicamente isso é extremamente danoso podendo causar dor que pode ser inclusive física, ansiedade, ataques de pânico, não aceitação do próprio corpo, anorexia, bulimia, compulsão alimentar, depressão, auto-mutilação, ideação suicida e tantos outros transtornos, sem contar que a geração Z (nascidos entre o fim do século passado e 2015) – adolescentes e pré-adolescentes hoje - nasceu sob a ótica das redes sociais e a geração anterior, Y ou Millenium - foi a primeira fortemente impactada pela internet na sua fase adulta e tem hoje, nela a sua maior distração; a noção de certo e errado, de bonito e feio, de ser aceito ou não, passa pelas redes sociais e na velocidade da luz. São hoje os maiores consumidores de Internet e de seus produtos, buscam “conceitos”, não querem comprar um café, querem o starbuscks que entrega uma experiência, o café é o acessório, isso é que foi incutido em nossas mentes, trabalham para criar em nós uma necessidade.

Com o bombardeio diário das mídias dizendo o que se deve fazer, vestir, comer, o que é ser uma “pessoa legal”, como deve se portar e enquadrar, despejando todas as dores do mundo, decepções e tragédias, todo esse arcabouço tóxico, como se fosse um circo de horrores, pode-se acabar sofrendo do que se intitula “vitimização secundária”, onde apesar de não serem aqueles que sofreram a violência, mesmo não tendo vivido a experiência, se fazem ouvintes, telespectadores, colocando-se como parte desse contexto e passando a sofrer o trauma também, isso acaba por gerar uma ansiedade crônica podendo evoluir para depressão e uma busca por sair desse ciclo nem que seja reagindo, atacando, se postando em prontidão sem a preocupação com a realidade, apenas com a própria pseudo-sobrevivência, ou ainda, pondo fim à vida.
Retornamos ao início, onde tudo era escuridão e a busca era pela sobrevivência: afagar, apaziguar, demonstrar afeto, clemência, respeitar, ser diferente, ser empático e se colocar no lugar do outro, ter compaixão, são portas abertas para a aniquilação, entendem-se como sinais de fraqueza. Esquecem-se de do pó viemos e ao pó voltaremos e isto não importa o quão forte ou ricos se tenham sido, todas as religiões concordam com a morte, divergem em si quanto a vida, a ressureição e a reencarnação, mas isso é problema de cada um ao adotar uma fé ou fé nenhuma.

Gosto de acreditar que o universo conspira, faça o bem que em algum momento ele retornará a você, crie o caos, viva o mal e o universo de encarregará de te cobrar, é uma crença sem embasamento científico, mas que serve para acalentar e justificar a minha impotência acerca de certos assuntos cotidianos. Por que simplesmente não agimos de acordo com o que achamos certo, independentemente se o outro o faz? Por que esperar a ação do outro para agirmos de acordo com o que ele fez, mesmo que não seja está a nossa vontade? As nossas ações deveriam ser pautadas pelo que acreditamos ao invés de nos moldarmos à massa. Será que não poderíamos apenas fazer o bem sem olhar a quem e deixarmos de olhar para trás esperando uma recompensa, um obrigado ou um depoimento cheio de hastags, @rrobas, ou depoimentos nas redes sociais????
Com certeza não sairemos iguais desta pandemia, já estamos diferentes, as definições de evolução e involução terão que ser reanalisadas, não podemos crer que o inimigo more ao lado.

Mas um primeiro passo para mudarmos esta realidade e darmos uma chance aos nossos filhos de serem quem quiserem ser poderia iniciar por uma nova “resolução de ano novo” – também nada científico – QUE TAL DEIXARMOS O CELULAR DE LADO, SEM NOS APROXIMARMOS DELE E PRINCIPALMENTE, DAS REDES SOCIAIS POR UMAS TRÊS HORAS POR DIA DO NOSSO TEMPO LIVRE E FOCAR ESTE TEMPO EM INTERAÇÕES SOCIAIS REAIS, OU SEJA, CONVERSAS E PROGRAMAS COM OUTROS SERES HUMANOS E OU ANIMAIS.

* Rodrigo de Souza é Mestre em Psicologia – Saúde e Processos Psicossociais

@psicologiaempilulas


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