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Publicado em Terça, 01 de Maio de 2012 - 11h14

José, o filho de Maria

Josi Gonçalves


Ele era mais um José como tantos outros na vida. Aliás, foi batizado com o mesmo nome de outros dois irmãos de uma pobre família paraibana: José Gonçalves da Silva. Se não teve direito a exclusividade no nome que o acompanharia pro resto da vida, muito menos teve a chance de ter o pai presente: Antônio Gonçalves da Silva, seu genitor, morreu precocemente aos 33 anos de idade - vítima de um infarto –– quando José, que ganhara o apelido de Dedé, tinha tenros três anos de vida. Sem a proteção masculina do pai, a vida do garoto já não seria tão leve.

Não foi fácil para o pequenino paraibano, nascido na cidade de Sapé, suportar as agruras do trabalho infantil na roça junto com os irmãos e a mãe, Maria. Mas ele era arrojado. Tanto que, anos depois, deixaria o sertão nordestino para trabalhar no Rio de Janeiro. Tempos após chegar à capital carioca, Dedé perceberia que não conseguiria viver longe de suas raízes e resolveu retornar para o seu nordeste.

Em solo nordestino, se apaixonou perdidamente por uma cearense dona de um belíssimo par de olhos verdes. Foi amor à primeira vista, daqueles de arrepiar a alma e marcar o coração pro resto da vida. Aos 19 anos casava com dona GercinaGercino de Lima, que passaria a se chamar Gercina Lima da Silva. Como se vê, em uma coisa os dois combinavam: os pais de Gercina também não eram lá muito criativos com nomes próprios. Mas Dedé emprestaria o seu Silva à mulher e harmonizaria o sobrenome da esposa.

Os dois tiveram cinco filhos: Gilberto, Josélia, Gilvan, Gilson e Josineide. Moraram em Natal, São José do Mipibú, Itambé (BA) e, por último, há 40 anos, aportaram em São Gonçalo do Amarante. José, que nessa época já se chamava Seu Dedé, havia se tornado um marceneiro por excelência. Pioneiro, ele montou na brejeira cidade potiguar uma pequena serraria. Dali ele tiraria o sustento da sua família e ensinaria o mesmo ofício aos filhos homens.

Com a marcenaria, Seu Dedé fez história em São Gonçalo. Quem comprou uma cama feita por ele há quatro décadas ainda a tem até hoje! Meticuloso e muito habilidoso, ele passava horas se dedicando a fazer o que mais gostava: móveis e a ensinar a prole masculina a trabalhar com a madeira. Junto com os filhos mais velhos, Gilberto e Gilvan, em poucos anos se tornariam os maiores fabricantes de móveis de toda região.

Mas a vida não era só trabalho. Seu Dedé tinha um hobby regular: ele adorava pescar! Nos fins de semana pegava a sua varinha de pesca, a isca e uma sacola com comida e se embrenhava mato adentro. Saía de manhã e só voltava à noite. Muitas vezes retornava com dois ou três peixinhos mixurucas, que mal davam pra fazer um ensopado, mas com uma expressão tão leve no rosto que a quantidade do que pescara era o que menos importava.

Ele levava uma rotina simples. Vivia de casa pro trabalho e de casa pro Rio Potengi. Era um homem de hábitos solitários. Ninguém o via em lugares públicos ou barzinhos. Assim como grande parte dos brasileiros, adorava uma cervejinha, mas trazia pra beber em casa. E como ele ficava lépido e fagueiro quando tomava “umas e outras”, se tornava divertido e até se aventurava a contar causos e piadas!

Seu Dedé só se excedia em duas coisas: no ciúme exagerado da sua Gercina, a quem amava mais que a própria vida, e no cigarro. Aliás, ele começou a fumar aos 13 anos de idade. E foi justamente o cigarro o responsável por um câncer no pulmão de seu Dedé. Durante dois anos ele lutou contra a doença. Foi um guerreiro. Enfrentou inúmeras sessões de quimioterapia e radioterapia. Mas a doença não dava tréguas e migraria para o cérebro e a garganta.

Mas seu Dedé não queria perder essa batalha não, gente! Fincou o pé no chão, fez planos de viajar para o Norte do País onde passaria uma temporada com a filha e até comprou malas para a viagem que não chegaria a fazer. Em 16 de novembro de 2010, já internado em razão do câncer terminal, Dedé partiria para o outro plano sem alarde. Da mesma forma como passou pela vida: de forma discreta e silenciosa. Deixou quatro filhos –perdera um há 14 anos – e a esposa com quem viveu por quase cinco décadas.

Como legado, deixou o ofício para filhos e netos e uma reputação ancorada em valores morais e éticos. Ensinou que é com trabalho que se alcança metas, que é com honradez que se conquista espaço no mercado e que é com princípios que se cria filhos, como ele dizia, “para o mundo”. Era, de fato, um homem sábio.

Na verdade, seu Dedé mal sabia assinar o próprio nome, mas tinha em abundância a experiência de uma vida que começou impiedosa lá no sertão paraibano e que se tornou mais amena justamente em São Gonçalo do Amarante, onde teve a oportunidade de mostrar que não era apenas um José, filho de mais uma Maria. Ele era José Gonçalves da Silva, um homem que media apenas um metro e meio de altura e que pela história de vida e contribuição na sociedade onde viveu, ficou eternizado na memória de quem conviveu com ele. Tanto, que vai virar nome de rua.

MEU PAI

Só quem é nordestino sabe como é gostoso um feijão verde com farinha, manteiga de garrafa e carne de sol. E se esse prazer culinário fosse degustado à moda do meu pai, era melhor ainda! Lembro dele sentado à mesa dispensando o uso de talheres quando o cardápio do dia era esse. Ele amassava o feijão e a farinha com as mãos calejadas pelo trabalho, fazia pequenos bolinhos e comia com uma satisfação tão imensa que até dava fome em quem estava por perto. Comia calado, sem muita conversa na hora da refeição. Dizia que aquele era um momento sagrado e que era um acinte a Deus, bater papo à mesa. E todo mundo respeitava. Era um homem rígido.

Mas comigo a rigidez sempre foi menor. Como eu era a caçula, tinha lá certos privilégios e uma dose extra de tolerância. Lembro de uma ocasião em que ele comprou dois lápis: um pra mim e outro pra ele. Pediu pra eu escolher com qual queria ficar. Primeiro eu quis um, depois o outro, para logo em seguida querer o que havia escolhido antes. Fiquei nesse lengalenga até que ele decidiu: Pronto! Esse é o seu e esse aqui é o meu. Fiquei possessa! Tomei os dois lápis da sua mão, os quebrei e disse: o senhor não vai ficar com nenhum!

Eu devia ter levado umas boas palmadas, mas ele fez diferente: me olhou com cara de tristeza e desgosto e me fez sentir a última das criaturas. Eu devia ter uns sete anos de idade, mas nunca mais esqueci aquela expressão. Olha só! Seu Dedé sabia usar a psicologia e naquele dia aprendi mais uma lição: a de que a gente deve ter ambição na medida certa, querer apenas o que é da gente e não desperdiçar uma oportunidade. Por sinal, nunca mais ele me daria lápis.

Mas, era na culinária (sempre ela) que meu pai encontrava suporte para demonstrar seu amor por mim. E eu adorava! Aos domingos, quando ia à feira municipal ele sempre trazia seriguela, banana leite, jabuticaba e goiaba, minhas frutas prediletas. Ah! E trazia grude também. Ele nunca soube dizer EU TE AMO, mas não precisava. Eu sabia que era amada. Afinal, como é que um homem, que perdeu a infância tão cedo, poderia agir diferente?

As lembranças dele sempre me povoam a mente. Afinal, meu velho sempre marcou presença na minha vida, de uma forma ou de outra. Mesmo sendo praticamente analfabeto, ele fez o que muitos pais não fazem hoje: sentava comigo pra me ensinar a somar, dividir e multiplicar.  E olha que ele era ótimo em matemática!

Hoje, dois anos depois de sua morte, lembro de quando estive com ele dias antes de sua partida. Pensei com meus botões ao vê-lo prostrado na cama respirando com dificuldade: Caramba! Ele vai embora mesmo e eu sei tão pouco sobre ele, tanta coisa que nunca conversamos, que nunca dividimos, que nunca confidenciamos... Mas, infelizmente era chegada a minha hora de vir pra Rondônia – havia ido só pra dar adeus ao meu velho. Saí de mansinho, pra não acordá-lo. E eis que ouço uma vozinha fraca e débil me chamar:

- Josineide...
- Sim, meu pai...
- Me espere lá em Rondônia, viu?

Saí de lá em frangalhos. Ele morreria uma semana depois e essa era a última lição que ele me dava: Nunca, mas nunca mesmo, desista dos sonhos. O seu era viver comigo em Rondônia e, de certa forma, ele vive. Vive nos meus pensamentos e nos meus sonhos e ficará eternizado na placa da cidade que o acolheu e a toda à família Gonçalves.


*Josi Gonçalves é jornalista no Rondoniagora


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