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Publicado em Sexta, 07 de Novembro de 2008 - 13h00

O "PASSEIO" EM JORDÃO - Por Altino Machado

Altino Machado


Retornei de Jordão, um dos municípios mais isolados do país, onde foi realizada a nona sessão da Assembléia Aberta - programa da Mesa Diretora da Assembléia Legislativa do Acre para possibilitar que deputados discutam diretamente com a população do interior do Estado alternativas de desenvolvimento regional que valorizem potencialidades e peculiaridades locais com vistas à promoção do crescimento econômico, melhoria da qualidade de vida e responsabilidade ambiental.

Viajei até Jordão em avião fretado pela Assembléia. Éramos mais ou menos 10 jornalistas. Na fronteira com o Peru, Jordão não tem acesso por estrada e uma viagem de barco, a partir de Tarauacá, pode demorar até uma semana. Tenho 45 anos de Acre, mas jamais havia tido a oportunidade de conhecer a cidade, na verdade um pequeno povoado que surgiu da exploração da borracha na década dos 1940 e foi transformada em município em 1992. Uma insanidade da política? Certamente.

Sabia basicamente que Jordão tem 6,3 mil habitantes e ostenta a maior taxa da analfabetismo do País - 60,7% da população com 15 anos ou mais não sabe ler ou escrever - e tem o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil e o menor IDH de toda a Região Norte. E fiquei sabendo que há 10 anos a vida em Jordão era pior e teria se agravado caso os três últimos governos do Acre não tivessem feito investimentos em educação, saúde e infra-estrutura para tentar reverter os péssimos indicadores do lugar.

Jordão tem a característica de possuir 71% de sua população na zona rural, mas na composição do PIB 51% é da administração pública e 35% da agropecuária. No ano passado, arrecadou R$ 43 mil e recebeu como repasse da cota do ICMS R$ 1,1 milhão. A receita do município é vitaminada por 83% de transferências da União.

Bem, o jornal O Rio Branco, do empresário Narciso Mendes, afirmou hoje que 18 dos 24 deputados estaduais foram passear em Jordão. Não é verdade, acreditem. Ninguém em sã consciência sai de casa para passear naquele "fim de linha", conforme me ensinou o aposentado José Francisco da Cruz. Nem mesmo a repórter de O Rio Branco que também aceitou o convite da Mesa Diretora e deverá permanece lá até amanhã.

Não pretendia escrever mais nada além do que já escrevi ontem sobre Jordão, mas a maldade do jornal suplantou meu cansaço. Desembarquei em Jordão nas primeiras horas da manhã de ontem, após 1h40 de vôo, a partir de Rio Branco, num avião bimomotor que sobrevoou a exuberância de nossas florestas e rios. Meus colegas e eu ocupamos na cidade uma casa modesta de madeira, onde funciona o escritório do governo estadual, um dos poucos locais com acesso à internet.

Dormimos no chão do escritório em colchões e lençóis que foram doados pelos moradores da cidade. Dois banheiros foram compartilhados com a devida precariedade pelo grupo, sem afetação. A água do banho, retirada de um poço semi-artesiano, cheirava a ferrugem. Endureceu o cabelo de todos e não permitia gerar espuma de shampoo ou sabonete. Além disso, não havia água mineral no comércio da cidade. Nosso café da manhã hoje foi pão-de-milho com macaxeira. Mais tarde, providenciaram pão, banana e mugunzá.

Boa parte dos moradores - metade da população é da etnia kaxinauwá- disse que os últimos dois dias foram os mais movimentados da história da cidade. Havia enorme expectava em relação à sessão com a presença dos deputados, onde o protocolo dá oportunidade de voz aos moradores. E foi assim que pude testemunhar a presença de parlamentares que jamais estiveram em Jordão ou obtiveram um voto sequer do povo de lá. Até o deputado Luiz Calixto, a voz mais estridente da oposição, compareceu fazendo a crítica ncessária e reconhecendo os esforços do poder público em possibilitar condições de vida mais digna a quem vive numa das regiões mais isoladas do planeta.

A população de Jordão prestigiou o evento porque percebeu que não existe outro caminho que não seja sensibilizar políticos e gestores públicos para a vida difícil que enfrenta. A única coisa que destoava na Assembléia Aberta eram os deputados suando em bicas por causa de seus ternos impróprios para o calor tropical. Mas o povo estava lá de bermuda, boné, cocar, tiara e até mesmo descalço. E cada um tinha direito a pedir a palavra, fazer sugestões e apresentar soluções.

Tudo foi pacientemente registrado pela pessoal de apoio técnico da Assembléia Legislativa, tendo a participação de superintendes do Sebrae, Basa, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Após a conclusão desses eventos, será elaborado um documento contendo os principais diagnósticos e propostas oriundas dos debates, que complementarão a agenda de desenvolvimento sustentável do Estado do Acre, o que é um qualificada contribuição ao governador Binho Marques, que tem como principal meta a inclusão social.

Todos estavam lá argumentando em defesa de processos de mudanças e transformações positivas de ordem econômica, política e social que possam levar a sociedade acreana a um estágio mais avançado de desenvolvimento.

- O que estamos fazendo aqui é reafirmando nosso compromisso com o desenvolvimento sustentável do Acre. Queremos satisfazer as necessidades da presente geração, de forma autônoma e contínua, sem comprometer a capacidade das futuras gerações - afirmou o deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), presidente da Assembléia.

O "passeio" em Jordão, queiram ou não alguns, representa uma revolução na história de um parlamento cuja maior satisfação era manter-se distante das dificuldades do povo.

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