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Edirlei Souza

O eleitor mudou: a fama, sozinha, já não ganha eleição

Segunda-feira, 05 Outubro de 2026 - 12:02 | Edirlei Souza


O eleitor mudou: a fama, sozinha, já não ganha eleiçãoDurante muitos anos, partidos políticos apostaram em artistas, humoristas, apresentadores de televisão, jogadores de futebol e outras celebridades como grandes “puxadores de votos” nas eleições proporcionais.

A lógica era relativamente simples: quem já era conhecido por milhões de brasileiros largava na frente de candidatos desconhecidos do grande público. 

Talvez o maior exemplo desse fenômeno tenha sido Tiririca (PSD-CE). Em 2010, na sua primeira eleição para deputado federal por São Paulo, o humorista recebeu impressionantes 1.353.820 votos. Quatro anos depois, ainda conseguiu 1.016.796 votos.

Tiririca virou símbolo de uma época. O bordão “Pior que tá não fica” encontrou espaço num eleitorado que, em parte, utilizava candidaturas irreverentes também como forma de protesto contra a política tradicional.

Contudo, os números seguintes mostram uma mudança significativa. Em 2018, Tiririca caiu para 453.855 votos. Em 2022, foram 71.754. Agora, em 2026, disputando a eleição pelo Ceará, sua terra  natal, recebeu apenas 5.536 votos. Entre 2010 e 2026, a redução nominal de sua votação foi de 99,59%.

E Tiririca não está sozinho. As eleições de 2026 tiveram novamente artistas, cantores, apresentadores, humoristas e famosos da internet tentando transformar popularidade em voto, como exemplo dos apresentadores Luiz Datena, Geraldo Luís, Sikera Jr e Silvia Abravanel. Nessa também não tiveram sucesso Manoel Gomes (conhecido como o Caneta Azul) e a Menina da Bota.

Muitos descobriram nas urnas que milhões de seguidores, visualizações ou reconhecimento público não significam necessariamente milhões de eleitores.
No entanto, seria um erro concluir que o eleitor simplesmente abandonou os candidatos populares ou aqueles que possuem forte presença nas redes sociais. A eleição de 2026 demonstra justamente o contrário.

No mesmo dia em que Tiririca recebeu 5.536 votos, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) foi reeleito com mais de 3,1 milhões de votos, tornando-se o candidato a deputado federal mais votado da história do Brasil.

E em São Paulo, Lucas Pavanato (PL-SP) também ultrapassou a impressionante marca de 3 milhões de votos. E o fenômeno não ficou restrito a um único campo político. Erika Hilton (PSOL-SP) recebeu aproximadamente 1,6 milhão de votos, tornando-se a mulher mais votada da história do Brasil para a Câmara dos Deputados.

Então, afinal, o eleitor deixou de votar em pessoas famosas? Parece que não. O que mudou foi o tipo de fama que consegue se transformar em voto.

Tiririca chegou à política porque era um humorista famoso. Já Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton construíram parcela relevante de sua notoriedade justamente fazendo política, defendendo ideias, assumindo posições e representando grupos identificados com suas pautas.

São campos políticos diferentes, pensamentos diferentes e eleitorados diferentes. Mas há algo em comum entre eles: o eleitor sabe o que cada um representa. Esse talvez seja um dos grandes recados das eleições de 2026.

O eleitor continua conectado, continua acompanhando influenciadores e continua sendo fortemente impactado pelas redes sociais. A diferença é que audiência de entretenimento e audiência política não são necessariamente a mesma coisa.

Uma pessoa pode seguir um cantor, assistir a um humorista, acompanhar um apresentador ou compartilhar vídeos de uma celebridade e, ainda assim, não enxergar naquela pessoa alguém que deseja como seu representante no Congresso Nacional.

Por outro lado, quando milhões de pessoas acompanham alguém justamente por suas opiniões políticas, ideias, causas e posicionamentos, existe uma relação muito mais direta entre seguidor e potencial eleitor.

É por isso que não se pode dizer que os grandes puxadores de votos desapareceram. Na realidade, eles mudaram.
Em 2010, Tiririca recebeu 1,3 milhão de votos e tornou-se o grande símbolo do candidato famoso que transformava popularidade e irreverência em força eleitoral. Em 2026, Nikolas Ferreira ultrapassou 3,1 milhões de votos e estabeleceu um novo recorde nacional.

A diferença entre esses dois fenômenos ajuda a compreender a transformação. A fama continua tendo força. Mas, sozinha, parece valer cada vez menos na urna.

O eleitor de 2026 mostrou que pode entregar milhões de votos a uma pessoa conhecida, inclusive a alguém cuja projeção nasceu ou cresceu nas redes sociais. Mas parece exigir algo a mais: identidade, posicionamento e representatividade. Talvez essa seja a grande diferença entre 2010 e 2026.

Há 16 anos, Tiririca entrou para a história eleitoral com a pergunta: “Pior que tá não fica?” Em 2026, depois de receber apenas 5.536 votos, as urnas parecem fazer uma nova pergunta aos famosos que desejam entrar para a política: “Você é conhecido. Mas o que você representa?”

*Edirlei Souza. Advogado. Palestrante. Professor. Mestrando em Políticas Públicas. Especialista em Direito Eleitoral, Direito do Servidor Público, Direito Sindical e Comunicação Pública. Foi servidor do TRE/RO por mais de 16 anos.

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