Edirlei Souza
O erro que pode custar sua eleição: O "fantasma" do voto de legenda
Quinta-feira, 05 Fevereiro de 2026 - 10:11 | Edirlei Souza
O sistema eleitoral brasileiro é um mosaico de regras que, se mal compreendidas, podem anular a vontade popular. Enquanto as eleições para chefes do Executivo e Senadores seguem o sistema majoritário — onde vence quem tem mais votos e o foco é a pessoa do candidato —, a escolha de Deputados e Vereadores obedece ao sistema proporcional.
A Lógica do Time: O Sistema Proporcional
Historicamente, o sistema proporcional foi desenhado para fortalecer os grupos partidários em detrimento do individualismo. A ideia é que o eleitor vote em um projeto coletivo; primeiro olha-se o desempenho do "time" (partido) e, só então, quem foram os jogadores mais votados dentro dele. Por isso, para esses cargos, o número da legenda é fundamental, permitindo o voto diretamente no partido.
O Fenômeno do Bolsonarismo e o Erro de 2018
Em 2018, o Brasil registrou um aumento expressivo de votos nulos para o Senado, totalizando mais de 63 milhões de votos inválidos.
Uma das principais teses para esse salto é a ascensão do "bolsonarismo". Naquele ano, o movimento de direita incentivou o voto casado no número "17" (legenda do PSL na época) para todos os cargos.
Muito provável que, o eleitor, acreditando que o voto de legenda funcionaria para tudo, digitou "17" seis vezes na urna. No entanto, como o cargo de Senador é majoritário, o sistema não admite voto de legenda. O resultado foi um desperdício massivo de votos que poderiam ter mudado o destino das cadeiras legislativas.
O Caso de Rondônia: Quando o Nulo "Venceu"
Em 2010, o total de votos nulos para senador foi 192.089 votos (11,35%), enquanto em 2018 foi 349.349 votos (20,49%).
Os números de Rondônia em 2018 ilustram perfeitamente essa distorção:
- Votos Nulos para o Senado: 349.349 votos (20,49% do total).
- 1º Colocado (Marcos Rogério): 324.939 votos (24,05%).
- 2º Colocado (Confúcio Moura): 230.361 votos (17,06%).
- 3º Colocado (Jaime Bagattoli): 212.077 votos (15,70%).
Matematicamente, o "voto nulo" superou o segundo candidato eleito, ocupando o que seria, simbolicamente, a segunda vaga do estado. Jaime Bagattoli, do PSL, possivelmente perdeu a eleição porque parte de sua base digitou apenas "17" (legenda) em vez de seu número completo, "177".
O Alerta para 2026
Com o retorno das duas vagas para o Senado em 2026, a lição de 2018 deve ser o norte para candidatos e instituições.
- Para os Candidatos: A estratégia deve unir a força política do grupo partidário a um número de fácil memorização.
- Para a Justiça Eleitoral: É urgente realizar campanhas que ensinem o eleitor que, para o Senado, é preciso digitar o número completo do candidato; e ainda que deverá votar em dois candidatos diferentes; caso contrário, o apoio ao partido e o voto repetido se transformam em um voto nulo e inútil.
* Edirlei Souza é Advogado. Palestrante. Professor. Especialista em Direito Eleitoral, Direito do Servidor Público, Direito Sindical e Comunicação Pública. Foi Técnico/Analista do TRE/RO por mais de 16 anos.